Humildade Intelectual: Virtude para Relações Profissionais e Pessoais

Como diria Aristóteles, a humildade intelectual deve ser uma virtude que se movimenta entre a arrogância intelectual e o servilismo intelectual. Portanto, uma pessoa intelectualmente humilde tem a percepção adequada das próprias forças e fraquezas intelectuais.

De acordo com Daryl R. Van Tongeren, “a humildade envolve conhecer a si mesmo (ou seja, desenvolver a autoconsciência), verificar a si mesmo (ou seja, reduzir a auto defensa) e ir além de si mesmo (ou seja, cultivar a empatia).

Entretanto, o fundamentalismo religioso e o extremismo ideológico são dominados por uma arrogância aterrorizante, dogma e ignorância, porque as  pessoas são, comumente, inclinadas a rejeitar e ridiculizar os argumentos ou pensamentos que não se alinham aos seus. As divergências políticos e morais são, em geral, incrivelmente resistentes e às vezes até perigosos.

Por outro lado, ser intelectualmente humilde melhora nossa capacidade de analisar os fatos e evidências, além de aumentar nossa tolerância a pontos de vista contrários aos nossos. Consequentemente, a humildade intelectual é muito importante em nossas vidas e em nossas relações interpessoais e profissionais.

De acordo com muitos estudos, a humildade intelectual é um atributo encontrado em pessoas que cultivam o amor ao conhecimento, autonomia intelectual, busca objetiva da verdade, empatia, autocompaixão e a generosidade intelectual. Ademais, a humildade intelectual pode nos ajudar a admitir que não sabemos e precisamos aprender. A humildade conduz a uma curiosidade genuína de aprender e desejo sincero de superar preconceitos é um traço de uma pessoa intelectualmente humilde.

Para Daryl R. Van Tongeren, “cultivar a humildade é um trabalho árduo, mas pode ser feito. Assim como treinar para uma maratona, desenvolver a humildade requer comprometimento contínuo e muita prática.

Nosso primeiro passo pode ser buscar feedback de uma fonte confiável; indagar o quão humildes somos e quais podem ser nossas áreas de crescimento é uma forma de obter uma avaliação inicial do trabalho que temos pela frente. E assim que recebermos esse feedback, precisamos trabalhar duro para resistir à defensiva. Não é útil receber feedback, por mais desfavorável que seja, se o descartarmos imediatamente. Afirmar-se e lutar pelo crescimento em vez de esperar a perfeição é importante.”

Uma pessoa humildade intelectualmente busca o conhecimento apoiado em argumentos e opiniões devidamente fundamentados e, ao mesmo tempo, mantem-se aberta aos pensamentos divergentes.

As pessoas que buscam desenvolver a virtude da humildade intelectual não seriamente preocupada em com o status intelectual e sempre consideram a possibilidade de possuir limitações, incluindo emoções, que podem dificultar o conhecimento objetivo sobre qualquer objeto em particular. Esses traços de caráter pode ajudar a inibir a arrogância intelectual ou orgulho excessivo sobre as próprias conquistas intelectuais.

“As pessoas que demonstraram humildade intelectual também fizeram um trabalho melhor avaliando a qualidade das evidências – mesmo em questões mundanas. Por exemplo, quando apresentados a argumentos sobre os benefícios do uso do fio dental, pessoas intelectualmente humildes distinguiram corretamente os argumentos fortes e baseados em fatos dos argumentos fracos”.. (https://neurosciencenews.com/)

Portanto, a humildade intelectual está relacionada à capacidade de avaliar criticamente as informações e evidência de forma não tendenciosa. Dessa forma, uma pessoa interessada em desenvolver a humildade intelectual deve estar consciente de nossas tendências de ignorar evidências que refutam nossas crenças anteriores e nossa tendência de superestimar nossa habilidades de conhecer ou reconhecer a verdade.

Por outro lado, a arrogância intelectual e orgulho excessivo são vícios que podem dificultar a aquisição de conhecimentos objetivos, porque levam as pessoas a centrarem-se na autopromoção e na autodefesa, em vez de concentrarem suas forças em suas limitações e fraquezas para buscar meios apropriadas para investigar os fatos e obter conhecimentos verdadeiros e objetivos.

A humildade intelectual, por sua vez, centra-se em preocupações epistemológicos objetivas e na busca incessante de evidências seguras que possam corroborar suas conclusões. Portanto, não existe uma preocupação inadequada sobre a própria importância social. Portanto, o ego não é fato dominante. As pessoas que são desinteressadamente humildes não estão preocupadas com o status e, portanto, são mais cooperativas em suas relações profissionais e sociais. 

As pessoas intelectualmente humildes não são obcecadas pelo próprio status social e, portanto, não tem um preocupação central com o que as outras pessoas pensam sobre ele. Então, parece que a arrogância intelectual está relacionada ao apego excessivo ao status social ou à opinião dos outros sobre seus atributos intelectuais. Uma pessoa intelectualmente humilde não se importa com o status social provenientes de suas aquisições intelectuais.

As pessoas humildes intelectualmente reconhecem suas falhas, erros e limites pessoais; elas estão abertos a ideias novas e as dissidências. As pessoas humildes reconhecem as contribuições e créditos das outras pessoas.

Nesse sentido D’Errico e outros:

“A humildade apreciativa é baseada nos sentimentos e pensamentos mais representativos da humildade. Isso normalmente segue o sucesso pessoal e está associado à compaixão, graça e compreensão e características como alta autoestima, status e amabilidade. A humildade apreciativa motiva uma orientação comportamental para celebrar os outros (Weidman et al., 2018), pois se baseia em pessoas altamente conscientes de suas próprias forças e limitações (Tangney, 2000). N D’Errico, Francesca, Bull, Peter, Lamponi, Ernestina and Leone, Giovanna. “Humility Expression and its Effects on Moral Suasion: An Empirical Study of Ocasio-Cortez’s Communication” Human Affairs, vol. 32, no. 1, 2022, pp. 101-117. https://doi.org/10.1515/humaff-2022-0009

A humildade intelectual implica avaliação adequada sobre as próprias forças e limitações intelectuais. Portanto, uma pessoa que não reconhece suas fraquezas intelectuais é, por definição, uma pessoa intelectualmente arrogante. Entretanto, a humildade intelectual não é cega ao reconhecimento das próprias virtudes intelectuais, embora não exista uma preocupação inadequada com status intelectual ou com a opinião das pessoas.

De acordo estudo realizada por Leor Zmigrod e outros, do Departamento de Psicologia, Universidade de Cambridge “A humildade intelectual foi identificada como uma virtude de caráter que permite aos indivíduos reconhecer sua própria falibilidade potencial ao formar e revisar atitudes e crenças.” As raízes psicológicas da humildade intelectual: o papel da inteligência e da flexibilidade cognitiva, 2019.

Para os autores desse estudo, “os resultados indicam que a humildade intelectual está positivamente relacionada com o aumento da flexibilidade cognitiva (Fig. 1A). Em segundo lugar, as descobertas revelam que a humildade intelectual também está positivamente correlacionada com a inteligência”

Assim, uma pessoa que deseja cultivar a humildade intelectual deve estar consciente de suas fraquezas ou limitações intelectuais e, por outro lado, não deve ser impropriamente orgulhosa das forças intelectuais em algum domínio específico. Dessa forma, uma pessoa intelectualmente humildade deve estar predispostas a revisor suas próprias crenças intelectuais sempre que novas evidências apontarem sem resultados diferentes.

Por consequência, todos precisamos viver em mundo em que todos as pessoas cultivem a humildade intelectual como uma virtude fundamental, visto que ela é importante para a construção de sociedade pacíficas e ambientes de trabalho mais harmoniosos. Precisamos juntar, em vez de separar as pessoas que pensam diferentemente. Dessa forma, o que é a humildade intelectual e que precisamos fazer para aprimorar a virtude da humildade intelectual são questões centrais em nossos debates diários, porque o desenvolvimento da humildade pode nos ajudar a melhorar nosso de trabalho e comunidades e criar ambientes em que todos podemos florescer. A humildade nos capacita a levar em consideração o ponto de vista de outras pessoas. 

Temos de articular ideias, aproximar as diferenças, argumentar em favor das diversidades e implementar mudanças que nos ajudem a conviver com as diferenças e as pluralidades, sem marginalizá-las, para ajudar a tornar a sociedade e a democracia mais saudáveis e inclusivas.  Por isso, a humildade é profundamente necessária em nossas sociedades.

Em resumo, uma pessoa intelectualmente humildade deve reconhecer suas limitações intelectuais em certos domínios, reconhecer suas forças intelectuais de maneira apropriada e, também, não deve estar obcecado com seu status social. A humildade nos obriga a prestar atenção, com sinceridade, nas perspectivas dos outros, a aceitar a dissidência para algo inerente à complexidade cultural, política e social, a desenvolver empatia e respeitar a humanidade de cada pessoa, além de reconhecer que nossas próprias opiniões podem estar erradas ou não estar baseadas em evidência sólidas.

Publicado por Vagney Palha de Miranda

VAGNEY PALHA DE MIRANDA, Bacharel em Direito Pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, Especialista em Direito Constitucional, Direito Tributário e Direito Processual. Especialização em Credencial de Liderança Pública, Harvard Kennedy School; Aprenda inglês: Gramática e Pontuação avançadas, Universidade da Califórnia, Irvine; Raciocínio, Análise de Dados e Escrita, Universidade de Duke; Inglês Acadêmico: Redação, Universidade da Califórnia, Irvine; Negociação, Mediação e Resolução de Conflitos, ESSEC Business School, Paris; Habilidades de Comunicação em Inglês para Negócios, Universidade de Washington; Direito de propriedade intelectual, Universidade da Pensilvânia; Fundamentos da Psicologia Positiva, Universidade da Pensilvânia. Bom com palavras: Redação e Edição, Universidade de Michigan (Michigan Law School) Cursos de direito Comparado: Constituição Escrita da América, Universidade de Yale; Constituição não Escrita da América, Universidade de Yale. Introdução aos Principais Conceitos Constitucionais e Casos da Suprema Corte, Universidade da Pensilvânia. Uma Introdução ao Direito Americano, Universidade da Pensilvânia - PENN Law School; Direito Internacional em Ação: Investigando e Processando Crimes Internacionais, Universidade de Leiden; Direito Internacional em Ação: A Arbitragem de Disputas Internacionais, Universidade de Leiden, Holanda. Direito Internacional em Ação: Um Guia para as Cortes e Tribunais Internacionais de Haia, Universidade de Leiden, Holanda; Chemerinsky Curso de Direito Constitucional - Direitos e liberdades individuais, University of California, Irvine. Economia: Princípios Econômicos, 2017 Stanford University

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