Ameaças do Populismo na Visão de Michael Sandel
Introdução:
A ascensão do populismo de direita global, simbolizado por figuras como Donald Trump e movimentos como o BREXIT, representa um profundo alarme para as democracias liberais. Michael Sandel oferece uma crítica incisiva a este fenômeno, argumentando que ele não é uma aberração, mas sim o resultado direto do fracasso histórico dos partidos de centro-esquerda. Estes partidos, ao abraçarem uma política tecnocrática e a lógica irrestrita do mercado, negligenciaram as dimensões morais, culturais e de estima social que definem a vida em comunidade. A ameaça contemporânea reside, portanto, na erosão da estima recíproca e no esvaziamento do discurso público, preparando o terreno para líderes que exploram a humilhação em nome da “vingança” política.
Capítulo 1: O Fracasso do Liberalismo Tecnicista e o Veredito de Raiva
O triunfo de Donald Trump e o voto pelo BREXIT foram “um veredito irado sobre décadas de crescente desigualdade em uma versão da globalização que beneficia aqueles no topo, mas deixa as pessoas comuns sentindo-se sem poder”. Sandel aponta que a ameaça inicial vem do abandono, por parte do establishment político, de sua missão original.
A Consolidação da Fé no Mercado
Após as eras de Reagan e Thatcher, os líderes de centro-esquerda que os sucederam (como Bill Clinton e Tony Blair) moderaram, mas consolidaram a fé no mercado. Dessa forma, abraçaram uma versão da globalização e da financeirização da economia impulsionada pelo mercado, sem desafiar sua premissa central: a de que os mecanismos de mercado são os instrumentos primários para alcançar o bem público.
O Ceticismo em Relação a Obama
Mesmo Barack Obama, que inspirou idealismo, optou pelo apaziguamento em vez da articulação da “raiva pública fervente contra Wall Street” ao resgatar os bancos sem responsabilizá-los. Esta decisão foi decisiva: a voz moral de Obama foi silenciada. Consequentemente, a raiva pública, sem um canal de expressão progressista, acabou alimentando o protesto populista que se espalhou pelo espectro político (como o movimento Tea Party, um movimento social e político populista conservador, e, por fim, a eleição de Trump). A incapacidade de enfrentar a desigualdade crescente e a desregulamentação financeira levou a uma perda de capacidade de inspirar e, crucialmente, criou o terreno fértil para a raiva populista.
Capítulo 2: A Ameaça Moral do Hubris Meritocrático (Meritocratic Hubris)
O que torna a divisão social tão corrosiva é a hubris meritocrática que acompanha a desigualdade econômica.
Arrogância e Humilhação Social
A ênfase implacável na criação de uma meritocracia justa — onde as posições sociais refletem talentos e esforços — tem um efeito moral devastador:
- Arrogância dos Vencedores: O conceito de que o sistema recompensa o esforço e o talento encoraja os “vencedores” a considerarem o seu sucesso como mérito próprio, uma medida da sua virtude.
- Humilhação dos Perdedores: Aqueles que ficam para trás enfrentam o pensamento desmoralizador de que o seu fracasso é culpa deles próprios, de que simplesmente lhes falta talento ou motivação.
Este complexo moral gera um “fermento volátil de raiva e ressentimento contra as elites”. Donald Trump soube explorar esse ressentimento. Ao contrário de Obama e Clinton, que falavam constantemente de “oportunidade” (reforçando a meritocracia), Trump ofereceu uma conversa direta de “vencedores e perdedores,” capitalizando o sentimento de humilhação cultural e o desprezo que os graduados universitários (a elite liberal) impõem àqueles sem diploma. A ameaça à democracia reside na criação desta profunda divisão e na exploração política da humilhação.
Capítulo 3: A Desigualdade de Estima e a Dignidade do Trabalho
Percebe-se que as queixas populares se relacionam não só com salários e empregos, mas também com a estima social.
A Desvalorização do Trabalho Comum
A perda de empregos para a tecnologia e o outsourcing – empesas terceirizada – coincidiu com uma sensação de que a sociedade concede menos respeito ao tipo de trabalho realizado pela classe trabalhadora. À medida que a atividade econômica se deslocou da “produção de coisas para a gestão de dinheiro” e recompensou desproporcionalmente gestores de fundos de cobertura, a estima conferida ao trabalho no sentido tradicional tornou-se frágil.
O Perigo da Renda Básica Universal (RBU)
A proposta de pagar a todos uma RBU para suavizar a transição para “um mundo sem trabalho”, se mal concebida, ameaça minar ainda mais a dignidade do trabalho e o seu lugar na “boa vida”. A ameaça ao bem público, neste contexto, é a perda do valor social e do propósito que o trabalho proporciona, deixando vastas camadas da população sentindo-se inúteis e excluídas do projeto nacional.
Capítulo 4: A Estratégia da Evitação e o Nacionalismo Vingativo
A ascensão do populismo e de figuras com tendências autoritárias (como as observadas em Putin, Trump e nos líderes da Hungria e Turquia) está ligada à falha central da filosofia pública liberal: a estratégia da evitação.
A Falsa Neutralidade Liberal
O liberalismo contemporâneo insiste que, para se ter uma sociedade tolerante, os cidadãos devem deixar as suas convicções morais e espirituais fora da esfera pública — a ideia de que o governo deve ser neutro em relação às concepções concorrentes de “boa vida”. Sandel considera essa estratégia um erro:
“Esta estratégia de evitação, esta insistência na neutralidade liberal, é um erro. Ela nos incapacita para abordar as questões morais e culturais que animam a revolta populista.”
Essa neutralidade achata as questões de significado, identidade e propósito em meras questões de justiça distributiva (salários e impostos), perdendo o ressentimento e a humilhação cultural que impulsionam o populismo. Por conseguinte, ao não travar debates públicos robustos sobre o significado do trabalho, o patriotismo, as obrigações mútuas e a identidade nacional, o liberalismo criou um “discurso público vazio e empobrecido, um vácuo de significado público”.
Capítulo 5: A Dupla Ameaça: Autoritarismo Populista e a Tirania do Mercado
O vazio deixado pela política tecnocrática e a erosão da estima social criaram uma afinidade perigosa entre a fé cega no mercado e a ascensão de líderes antidemocráticos. A ameaça reside na intersecção da pretensão autoritária do populismo com o esvaziamento moral causado pela lógica mercantil.
O Populismo como Vingança Antidemocrática
Líderes populistas, como Donald Trump, e figuras com tendências autocráticas não ameaçam a democracia apenas por suas políticas, mas por sua rejeição da pluralidade. O populismo, ao se autoproclamar o único representante do “povo verdadeiro,” deslegitima sumariamente a oposição, a mídia e o judiciário como meras ferramentas da “elite corrupta.” Essa retórica anula o debate e o compromisso, pilares da vida democrática. O autoritarismo populista preenche o vácuo moral do liberalismo com um “nacionalismo estridente e vingativo”, que busca a exclusão e a restauração do status através da força, minando a coesão social em nome da humilhação explorada.
O Mercado como Instituição Moral Ameaçadora
Paralelamente, a ameaça se aprofunda com a lógica do mercado. Para Sandel, a lógica de mercado não é moralmente neutra. O mercado é atraente para a política liberal porque permite que questões controversas sejam resolvidas através do preço, substituindo o debate público moral pela eficiência econômica. Contudo, quando a lógica mercantil se expande para esferas não mercantis (educação, saúde, dever cívico), ela desvaloriza e corrói os bens sociais. Ao terceirizar o julgamento de valor para os preços, a sociedade perde a capacidade de deliberação cívica sobre o que constitui a “boa vida” e as “obrigações mútuas.” Este esvaziamento do discurso público democrático enfraquece a democracia a tal ponto que a torna vulnerável às alternativas autoritárias.
Conclusão:
A crise democrática, na visão de Sandel, é mais do que uma crise de distribuição econômica; é uma crise de reconhecimento cívico e moral. Para conter a maré do populismo e resistir à pretensão autoritária, o caminho passa por uma reforma fundamental do discurso público. Devemos substituir a falsa neutralidade liberal por um debate cívico robusto, onde questões de significado, propósito, identidade e as obrigações mútuas de cidadania sejam discutidas abertamente. Somente ao reavivar a deliberação moral e ao reconectar a política com a esfera do bem comum, restaurando a dignidade do trabalho e a estima social para todos os cidadãos, é que a democracia poderá recuperar sua vitalidade e neutralizar o ressentimento que alimenta a alternativa antidemocrática.
